O sol que nos alimenta – uma conversa sobre segurança alimentar

Por  em 02/08/2021
Walter Steenbock *

O título desse artigo pode dar a impressão de ser sobre “viver de luz”. No fundo, é mesmo. Mas vou explicar melhor.

Tudo o que comemos vem das plantas. Mesmo quando comemos carne, é de um animal que comeu plantas. E caules, raízes, flores e frutos, seja de qual planta for, são constituídos basicamente por gás carbônico e água, tocados pela energia do sol, na biotecnologia mais revolucionária desenvolvida para a vida no planeta – a fotossíntese.

Na fotossíntese, a “junção” de gás carbônico e água produz glicose, que armazena a energia solar na ligação entre seus átomos de carbono. E é com essa glicose que as plantas produzem amido, celulose, lignina e todas as suas substâncias. Quando comemos, digerimos tudo isso até formar glicose novamente. Levamos essa glicose até as nossas células e ali, mais precisamente nas mitocôndrias, adicionamos o oxigênio que trouxemos da respiração. Quando o oxigênio reage com a glicose, a energia que ligava seus átomos de carbono é liberada. E essa é toda a energia que temos. Ou seja, andamos, corremos, amamos, pensamos, cantamos, trabalhamos e sonhamos movidos exclusivamente pela energia solar, armazenada pelas plantas em forma de glicose.

E, quando comemos, não aproveitamos só a energia armazenada pelas plantas, mas também todos os nutrientes que cada uma delas trouxe da terra, organizados nas estruturas de vitaminas, proteínas, sais minerais, lipídios e açúcares.

Cada espécie de planta é especialista em captar nutrientes diferentes e com eles produzir substâncias próprias. Sabemos que abóbora é rica em caroteno, que espinafre é rico em ferro, que as frutas cítricas costumam ter muita vitamina C… e por aí vai.

Uma boa agricultura é aquela que busca condições para as plantas captarem da melhor forma possível a luz solar e os nutrientes da terra, gerando comida em abundância e qualidade. É por isso que, de acordo com um antigo provérbio chinês, a agricultura é a arte de guardar o sol.

Gosto de olhar para cada alimento e tentar perceber como o sol chegou nele. O trigo do pão veio da semeadura de grãos, geralmente em lugares mais frios. O aipim frito precisou do plantio de manivas de mandioca, domesticada pelos índios, e do óleo extraído de grãos para fritá-lo. No queijo, o sol foi guardado na pastagem e metabolizado pela vaca no leite, que foi salgado e oferecido a fungos específicos. Quanto maior a diversidade de alimentos que consumimos, em quantidades adequadas, maior a nossa saúde. Assim, fazendo uma analogia com o provérbio chinês acima, poderíamos dizer que a segurança alimentar é a arte de se nutrir do sol, na sua imensa diversidade e abundância de cores e sabores.

Mas, em geral, os alimentos não chegam em casa sem estarem acompanhados de embalagens. E como elas foram feitas? De papel, que veio do sol nas árvores, ou de plástico, que veio do sol no petróleo. Afinal, o petróleo nada mais é do que matéria orgânica originada especialmente de plantas de outras eras, e transformada geologicamente. Há menos de dois séculos, descobrimos que o petróleo tem muita energia armazenada e fomos passando a utilizá-lo em nossa vida cotidiana, no transporte e nos processos industriais. Há algumas décadas, descobrimos que ele também serve para fazer plástico. E, com plástico, passamos a produzir quase tudo. Assim, o petróleo, como fonte de energia e em forma de utensílios, está entranhado em nossas vidas. Seja onde você estiver neste momento, olhe em volta. Tente perceber, em cada objeto, se para ele ser o que é não foi preciso plástico e gasolina. Quase todos eles – senão todos – precisaram de ambos, em maior ou menor grau.

Com petróleo, passamos também a processar alimentos e a criar novas substâncias para conservá-los, pintá-los e ressaltar seu cheiro ou sabor. Se tiver, abra agora uma embalagem de “salgadinho” de milho. Milho mesmo é o que menos tem ali, concorda? Bem, comer petróleo em forma de substâncias sintéticas não tem como fazer bem para a saúde. Afinal, passamos milênios adaptados a comer plantas e carne, e não conservantes e aromatizantes.

Nossa “paixão” pelo petróleo também modificou a agricultura. A adubação feita a partir de folhas e esterco foi dando lugar a adubos químicos sintéticos. Plantas desequilibradas nutricionalmente são mais suscetíveis a insetos e fungos, que passaram a ser combatidos com agrotóxicos. O preparo do solo passou a ser feito com grandes máquinas, produzidas com muito petróleo e dele dependendo para funcionarem. Os camponeses foram sendo retirados de suas terras, seja por grilagem, expulsão ou falta de condições de produção e comercialização, dando lugar ao latifúndio e à monocultura. O metabolismo humano com a natureza para a produção de alimentos foi se transformando, aos poucos, na dependência de insumos artificiais e maquinário. Desmatamento, erosão e poluição ambiental são alguns dos graves efeitos da agricultura moderna. Além, é claro, do fornecimento de alimentos nutricionalmente pobres e contaminados à população. Ou seja, aquele pouquinho de milho do “salgadinho” nem milho é de verdade.

No que tange à alimentação e à agricultura, sabemos que podemos fazer diferente. Podemos nos alimentar de produtos naturais e podemos fazer agricultura orgânica, biodinâmica ou agroflorestal. Podemos, afinal, ter uma linha mais direta com o sol na produção e no consumo de alimentos, sem precisar recorrer ao seu armazenamento antigo em forma de petróleo. Isso é fundamental para nossa saúde e a do planeta. Por que, então, não saímos do círculo vicioso de doença e contaminação ambiental colocado acima?

Obviamente que não há resposta simples a essa pergunta, mas é preciso lembrar que as cadeias de produção e comercialização de alimentos processados têm dono. E são poucos, mas muito grandes. Dá uma olhada nos rótulos das embalagens de alimentos processados na dispensa. Os nomes dos donos estão ali, repetidos em alimentos aparentemente diferentes. O grande lucro gera grande poder, propaganda, melhores condições de mercado e influência em governos. Algumas dessas empresas também são produtoras de sementes, adubos, agrotóxicos e medicamentos, em um ciclo altamente lucrativo, que não se mantém por acaso.

Este grande poder não é maior, entretanto, que o do sol. Ele continua lá. Diferente do petróleo, ele não tem dono. Cada dia aumenta mais o número de famílias de agricultores produzindo alimentos a partir da agrofloresta ou outras formas de agricultura regenerativa, no campo da agroecologia. O sol vai retomando o lugar nesta arte, protagonizando o manejo das plantas e das adubações, gerando dezenas de toneladas de alimentos por hectare, de alto valor nutricional. Perto de você, provavelmente tem alguém fazendo isso. E, se não tem, dá pra fazer isso no quintal de casa, ou numa horta urbana.

Fazer agricultura a partir do manejo da luz e da diversidade de formas de vida ou ficar perto de quem faz isso, consumindo seus produtos, é muito bom para a saúde, com efeitos imediatos. E, aos pouquinhos, vamos percebendo que não precisamos tanto de comida ultraprocessada, produzida em grandes latifúndios longe da gente e misturada com plástico. Comer vai se tornando um ato de autonomia e cidadania, de liberdade mesmo, e revolucionário. E Gaia agradece.

(*) WALTER STEENBOCK é agrônomo, mestre e doutor em Recursos Genéticos Vegetais. Atua no campo da agroecologia há 30 anos, desenvolvendo atividades de ensino, pesquisa participante e de extensão rural junto a agricultores familiares camponeses e comunidades tradicionais, com foco em sistemas agroflorestais e manejo de produtos florestais. Em parceria com outros colegas, é autor de “Agrofloresta, ecologia e sociedade” (Kairós, 2013), “Agrofloresta: aprendendo a produzir com a natureza” (editado por Fabiane Vezzani, 2013) e “Agroflorestando o mundo de facão a trator” (Cooperafloresta, 2016). O livro “A arte de guardar o sol – padrões da natureza na conexão entre florestas, cultivos e gentes”, que será lançado em breve pela Bambual Editora, representa uma síntese do seu aprendizado de toda sua trajetória profissional, entre observações, conversas, pesquisas e práticas.


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* Conceição Trucom
 é química, pesquisadora, palestrante e escritora sobre temas voltados para alimentação natural, bem-estar e qualidade de vida. Possui 10 livros publicados, entre eles O Poder de Cura do Limão (Editora Alaúde), com meio milhão de cópias vendidas, Mente e Cérebro Poderosos (Pensamento-Cultrix) e Alimentação Desintoxicante (Editora Alaúde).

Reprodução permitida desde que mantida a integridade das informações e citadas a autora e a fonte: www.docelimao.com.br

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