Felicidade: da loucura à transcedência

Felicidade: da loucura à transcedência

Conceição Trucom *

Me dei de presente de aniversário ler este fantástico livro Na era da Loucura do Michael Foley (Alaúde), que devorei feliz cada uma de suas páginas e capítulos. Difícil escolher qual mais me impressionou...

Foi tanta alegria e felicidade, que tenho a certeza que no dia em que fôr revisar e ampliar meu livro Mente e Cérebro Poderosos (Pensamento-Cultrix), certamente este livro será citado, referenciado e indicado. Na verdade, penso que os 2 se complementam, já que toda a proposta dos exercícios e da alimentação apresentadas no meu livro, irão acelerar a compreensão e valorização sobre as informações sobre como não se contaminar pela Era da Loucura...

Decidi que nada melhor que as palavras do autor para instigar a sua leitura deste livro que, além de muito bem traduzido, mostra que o autor é um estudioso voraz do assunto, conferindo ao livro momentos de muito humor (principalmente de si mesmo), filosofia, história, poesia, música, ciência; porém costurados de maneira fluida, brilhante...

Mas quem no mundo ocidental não ficaria enlouquecido com um coquetel tóxico de insatisfação, desassossego, desejo e ressentimento? Quem não ansiou ser mais jovem, mais rico, mais talentoso, mais respeitado, mais celebrado e, acima de tudo mais amado? Quem não se sentiu merecedor de mais, e ressentido quando esse mais não chegou? É possível que um africano faminto se sinta menos injustiçado que um ocidental de meia-idade que não tem uma casa na praia ou de campo.

Naturalmente, muita gente tem consciência de que querer tudo é absur­do. E então vem a pergunta. Como é que surgiu essa expectativa desmedida? Existe alternativa? Se existe, como se pode alcançá-la? Será que as melhores cabeças do passado e do presente podem oferecer algum conselho útil? Exis­te um consenso no que elas dizem? Se existe, qual é e como se aplica à vida do século XXI? São questões como essas que este livro levanta - mas não há respostas simples.

Até mesmo definir um objetivo é difícil. A alternativa à loucura da insatisfação é a sanidade do contentamento - a felicidade. 

[...] Na prática, é tão difícil encontrar um testemunho útil de felicidade quanto uma teoria convincente. Diferentemente de seu oposto, a depressão, a felicida­de é avessa a definições. A lembrança do sofrimento é um gênero estabelecido, mas não existe equivalente para a felicidade (na verdade, uma infância feliz é uma condição paralisante para um escritor). Parece que só as experiências dolorosas são fonte de inspiração.

Talvez o estado de felicidade surja da recusa de analisar a situação, porque qualquer tentativa de definição a mataria. Talvez nem seja possível ser feliz conscientemente. Talvez esse estado só seja percebido retrospectivamente, depois que o perdemos. Jean-Jacques Rousseau foi o primeiro a elaborar essa ideia: "A vida feliz da idade de ouro foi sempre uma condição estranha à raça humana, seja por não tê-la reconhecido quando poderia tê-la desfrutado, seja por tê-la perdido quando poderia conhecê-la". Em outras palavras, se você a tem, não pode ter consciência dela; e, se você está consciente dela, não pode tê-la.

[...] Quando examinada com mais atenção, a condição de felicidade se revela não um ponto, mas uma faixa, na qual o contentamento é o ponto mais baixo e a exaltação, o mais alto.

Outra hipótese é de que a felicidade não seja um estado, mas um proces­so, um desafio contínuo (palavras minhas)... Ou talvez ela seja ao mesmo tempo um estado e um processo. O termo grego "eudaimonia" capta algo das duas interpretações e a traduz grosso modo como "florescimento". Essa é uma ideia interessante: ser feliz é florescer. 

Mais uma vez, presume-se que só uma versão de felicidade é alcança­da por uns poucos afortunados. Mas, dada nossa bizarra singularidade, é improvável que duas pessoas felizes estejam experimentando exatamente o mesmo fenômeno. E provável que existam tantas formas de felicidade quantas de depressão.

Como alcançar esse estado indefinível? A Declaração de Independência dos Estados Unidos tem uma expressão famosa: "a busca da felicidade". Mas muitos acreditam que a felicidade não pode ser buscada, porque é uma consequência acidental de algo que se faz - uma ideia manifestada pela primeira vez por John Stuarr Mill no século XIX: "Só são felizes [...] aqueles que têm a mente voltada para outro objetivo que não sua própria felicidade. 

[...] E existe ainda a ideia de que a busca da felicidade é a principal causa de infelicidade, de que essa busca é intrinsecamente autodestrutiva. Immanuel Kant traduziu isso da seguinte forma: "Descobrimos que, quanto mais uma razão esclarecida se dedica ao objetivo de desfrutar a vida e a felicidade, mais o homem se afasta do verdadeiro contentamento".

[...] O psicólogo americano Mihaly Csikszentmihalyi usa a palavra "fluir" para descrever o estado mental profundamente satisfatório alcançado mediante uma imensa e prolongada concentração em atividades difíceis, que exijam um alto nível de habilidade. A experiência é semelhante num grande número de atividades aparentemente desconexas, entre elas o esporte competitivo, o al­pinismo, o trabalho profissional, a execução de um instrumento musical, a criatividade artística, a dança, as artes marciais e o sexo.

Como em outros métodos de transcendência*, essa satisfação tem que ser conquistada. A habilidade precisa primeiro ser adquirida, lentamente e mediante frustrações. Não há gratificação imediata. De fato, não poderia haver. O aprendiz pode não ter aptidão ou disciplina, mas, quando a habilidade se torna automáti­ca, o milagre pode ocorrer: uma absorção tão completa que exclui o ser, o tempo e o lugar. Horas ou até mesmo dias podem passar despercebidos. O self se dissol­ve e desaparece. E algo estranho ocorre. A atividade parece tornar-se não apenas fácil, mas autônoma - assumir o controle, ser dona de si. Então o instrumento toca sozinho, a espada se empunha, o poema se escreve, o bailarino não dança, mas permite que a música tome conta de seu corpo, e os amantes não fazem amor, mas se entregam ao vertiginoso movimento da Terra.

Existem muitos paradoxos nisso. Um intenso esforço é necessário para produzir a sensação de falta de esforço; intensa consciência para chegar à in­consciência; total controle para experimentar a total falta de controle. E só aqueles que estiverem em plena posse do self poderão se entregar plenamente. Na verdade, quanto mais forte a sensação do self, maior o arrebatamento por escapar à sua tirania.

Bem, são 232 páginas saborosas, motivadoras e que podem nos proporcionar felicidade, fé, esperança: no simples, no silêncio, na desaceleração. Parece árduo ler tantas páginas? Mas a diversão acontece durante e principalmente após. Um livro pessoal, que deverá ser marcado, copiado, relido e principalmente: posto em prática!

Estarei postando ao longo de agosto, algumas partes deste livro, como por exemplo o tema do capítulo 10, sobre as Dinâmicas do Cérebro humano, que como uma semente (aliás fisiologicamente o cérebro lembra uma noz), contém toda a matéria-prima para a Cultura da Vida - que nos leva à transcendência - ou Cultura da Morte, que nos leva à perda da transcendência...

E o capítulo 12, absolutamente risível (bem humorada), porque um retrato perfeito da realidade, que fala das coisas absurdas do amor nos relacionamentos de parceiros... Perfeito quanto explana, cientificamente, da diferença que existe entre paixão (amor romântico) e amor (afeto), pois envolvem circuitos e neurotransmissores cerebrais totalmente diferentes...

(*) Como as práticas meditativas, que inicialmente exigem absoluto esforço, mas uma vez alcançada surge um sentimento de superação, validação e sutilização.

Leia também: Somos como as sementes

Leia: Na era da Loucura - Michael Foley (Alaúde).


 

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* Conceição Trucom
 é química, cientista, palestrante e escritora sobre temas voltados para alimentação natural, bem-estar e qualidade de vida.

Reprodução permitida desde que mantida a integridade das informações e citadas a autora e a fonte: www.docelimao.com.br

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