Brincadeiras e Cura

Conceição Trucom*

Todo mamífero brinca quando criança, sendo esse um privilégio que só se atinge a partir desse grau de evolução, numa clara demonstração da natureza: os que têm amor dentro de si.

Os mamíferos têm o amor dentro de si, pois têm como primeiro alimento o amor, representado pelo aleitamento materno. Àquele que tem a semente do amor dentro de si é dado o privilégio de brincar, ter acesso ao mundo da brincadeira, o mundo do testar os potenciais antes de aplicá-los efetivamente. Brincar revela um ânimo para experimentar, onde “erros” podem acontecer, mas existe a fé de que serão facilmente perdoados, até mesmo repetidos até que o aprendizado se instale. Potenciais podem ser testados, sem que os fracassos sejam pesados ou julgados.

Aliás, é durante as brincadeiras que o desenvolvimento psicomotor e as dificuldades da criança podem ser observadas, para que o adulto possa interferir (ou não) em sua ajuda.

No geral, toda criança saudável gosta de brincar e o faz com todas as forças disponíveis, o dia inteiro, só parando ao final das energias, para dormir. Criança que não brinca é um sinal de alerta para os pais e médicos sondarem sobre seu estado de saúde.

Atendendo às exigências externas da sociedade como um todo e bem estruturada por aqueles que estão mais próximos de nós, especialmente aqueles que estiveram comprometidos com nossa educação e sobrevivência até o começo da fase adulta, nos adequamos ao esquema social predominante, nos encaixando no mercado de trabalho – cuja profissão deveria ser uma fonte de realização e prazer - e vamos seguindo em frente da melhor forma possível, dando o melhor de nós, porém nos distanciando das brincadeiras, ou seja, do amor: por nós, pelo que fazemos, pelo que doamos.

Esse quadro está de tal forma configurado que chegamos a crer que "é assim mesmo", que nada pode ser feito a esse respeito. Mas, mesmo estando entrelaçado num contexto social humano profundamente arraigado, podemos coletivamente mudar essa situação a partir de uma reestruturação social, começando pelo novo espaço que damos aos nossos filhos, às crianças e às nossas crianças internas: crescem e se curam todos juntos.

O resgate dos aspectos terapêuticos e curativos das brincadeiras estão intimamente ligados ao nosso poder coletivo de assumirmos essas verdades e manifestarmos nosso potencial de resgatar cada um de nós, nossa sociedade global e retomar o eixo de auto-sustentabilidade da vida no Planeta Terra.

Sim, auto-sustentabilidade é o lugar de chegada, pois a transformação de valores não passa pela neurose da sobrevivência a qualquer custo.

As brincadeiras podem ser usadas como um resgate da união, de podermos estar abertos uns aos outros. As crianças estão sempre abertas, onde quer que cheguem, formam sempre um grupo homogêneo com todas as crianças presentes, pois ainda não estão fechadas para o contato para o próximo. Na origem não há preconceitos, credos, amarguras ou registros de experiências dolorosas de contato.

Os espaços da Brincadeira:

    * brinca-se quando existe permissão, espaço, abertura e condições para que a brincadeira ocorra. Sem dúvida que existem momentos quando prioridades e urgências ocupam o espaço das brincadeiras. Entretanto, jamais impedir (escutando-a, dando-lhe atenção), que a criança expresse sua perspectiva de espontaneidade e ludicidade, pois deste ponto de vista podemos colher alguns diamantes, tipo: a vida vale à pena, nesta solução eu não tinha pensado, estou bem acompanhado, etc.

    * a brincadeira existe quando há espaço para experimentação e erro. Lembrando que cabe ao adulto avaliar a periculosidade da brincadeira, como exemplo a adequação à faixa etária, etc. A criança não deve ser pressionada por resultados, perfeição ou competição. Tipo: se acerta ganha beijos, abraços e presentes, ou seja, atenção e amor. Ao contrário, se “erra” (entre haspas porque é apenas uma brincadeira ou experimento), deve ser incentivada no seu espaço de brincar e experimentar, talvez adequando a brincadeira às suas aptidões e interesses.

O amadurecimento, crescimento e cura da criança tem uma proporção direta com o seu comportamento diante das brincadeiras, pois se deixada em condições ideais de manifestação, agirá sempre por sua intuição, seguindo as orientações da sabedoria do corpo e do espírito.

Claro que ainda lhe falta o resgate de muitos conhecimentos, daí ela experimentar muitas coisas que também envolvem risco. Mas lembre-se das condições ideais citadas: cabe aos pais, aos condutores das crianças gerarem essas condições. E também intervirem quando perceberem que as brincadeiras de seus filhos saíram do eixo.

A criança não é um infantilóide, nem um adulto em miniatura. Deve ser tratada como uma criança, um ser inteligente, com uma perspectiva diferente da nossa (mais leve, espontânea e lúdica), mas em aprendizado e experimentação, até mesmo do seu corpo que só estará 100% encarnado aos 21 anos.

Assim também somos nós: crianças espirituais brincando no parque de Deus que é o planeta Terra. Entretanto, nossas brincadeiras passaram dos limites e é chegada a hora de passarmos por nossa terapia coletiva, dissolvendo toda a nossa infantilidade (que nos impede de termos um mundo decente e bom de se viver) e resgatando nossa criança interior. A infantilidade é a birra, o medo de amar e a incapacidade do adulto de lidar com os desafios reais do presente. As crianças são os portais, a lembrança dos aspectos mágicos, leves e saudáveis de podermos ser, sábia e humildemente, o que somos.

Vamos resgatar nosso direito natural de podermos ser leves, espontâneos, confiantes, ingênuos, curiosos, e já adultos, corajosos.

Condição do recém-nascido e do nascimento

De todos os seres da criação terrestre, o ser humano é a criatura mais frágil ao nascer. Se deixado só após o parto, a chance de um bebê sobreviver é praticamente nula.

Manifestação pura de amor, nasce iluminada, porém 100% dependente e inconsciente dessa iluminação. Cabe a cada um, no seu tempo e quando acontecem oportunidades, despertar a consciência para esse estado inato de iluminação.

A criança nasce sem os dentes, que têm um reflexo direto com nossa manifestação de raiva, ou seja, ela nasce polarizando o amor 100%, sendo totalmente inofensiva a quem quer que seja.

Na medida que o tempo passa, vai se moldando ao seu mundo exterior conforme as demandas dos responsáveis por sua educação e sobrevivência. Nosso potencial de descobrimento, autonomia e manifestação vai se adequando aos novos "equipamentos" e recursos que vamos adquirindo, como a coordenação motora, os dentes e domínio de habilidades diversas do organismo. Descobrimos, resgatamos e desenvolvemos potenciais através da experimentação e das brincadeiras com o próprio corpo e com o ambiente externo.

A experiência do corpo quando a criança brinca

As primeiras brincadeiras do bebê estão associadas à exploração do mundo externo e do seu próprio corpo. Quando começa a dominar um pouco mais o corpo, seus movimentos e a coordenação motora, as brincadeiras são bastante corporais: pique-esconde; pique pega; amarelinha, corridas, cambalhotas e tantas outras peripécias.

Na medida em que vamos crescendo, aspectos intelectuais vão ganhando espaço dentro das brincadeiras, vamos nos integrando a jogos e interações mentais cada vez mais polarizadas vão ocorrendo.

O treinamento que recebemos para nos preparar para ser um ser socialmente adaptável nos tira da ligação com a fonte e nos especializa em perceber o mundo tridimensional e as formas externas ao nosso corpo.

O corpo, as emoções, as sensações mentais ainda estão tão arraigados à percepção, que a criança chega a apresentar uma manifestação desconectada do ambiente externo: ao mesmo tempo que consegue absorver-se totalmente em seu mundo da imaginação para ser qualquer personagem que queira, também vive se envolvendo em pequenos acidentes, tal sua desatenção para as coisas que a cercam fora de seus interesses específicos, vive derrubando e esbarrando nas coisas...

Entendimento do Entretenimento

Podemos entender o entretenimento como algo com o que nos envolvemos sem maiores preocupações de resultado, apenas por prazer, diversão ou distração.

A mente como a maior fonte de entretenimento - em seu livro "Inteligência Multifocal", o psiquiatra Augusto Cury, com muita propriedade, defende a tese de que a mente é a maior fonte de entretenimento que podemos ter ao nosso dispor. A quantidade e qualidade de imagens, pensamentos, questões, análises e inferências propostas e vivenciadas a partir da mente são infindáveis.

Augusto Cury também nos alerta para a necessidade de resgatarmos a capacidade de nos entreter com as coisas simples. Temos essa capacidade na infância. Uma criança se encanta e entretém com as coisas mais simples e singelas: um pedaço de madeira no chão, o formato das nuvens, as sombras das pessoas, uma tigela no chão, enfim, qualquer coisa. A mente tem a tendência de classificar os eventos, objetos e as coisas de uma forma em geral em grupos de iguais. E tudo aquilo que vai sendo classificado vai deixando de se tornar interessante para sua especulação e envolvimento. Afinal, aquilo já lhe é conhecido, deixa de ser novidade e passa a "perder a graça".

Todavia, é fundamental que voltemos a encontrar a capacidade de nos encantar com as coisas simples e aquilo que já se conhece. Esta diretriz é básica para a manutenção da própria vida e do equilíbrio mental e da saúde como um todo, pois só a partir desse poder seremos capazes de encontrar a saciedade e abrir os portais da conexão com o momento presente.

Aspectos do humor no contexto de obtenção e manutenção da saúde

O humor é uma das exclusividades da espécie humana, só o ser humano é capaz de sentir e fazer humor. O riso é uma das manifestações de humor mais características.

Embora muito estudado e teorizado por pensadores e filósofos de diferentes tendências e correntes, é bastante difícil definir o humor. Entretanto, no geral, sempre sabemos reconhecer quando ele ocorre, quando algo é engraçado, quando algo nos tira do sério.

Para o entendimento do humor dentro do contexto deste conteúdo de brincadeiras e cura, podemos entendê-lo como uma bênção do ser humano em tornar o mundo e as situações mais leves, mais aceitáveis, mais interessantes e atraentes. Sabemos que tanto o humor quanto a gratidão constituem-se em poderosas forças e artifícios para levarmos o dia-a-dia, especialmente dos adultos, para lidarem com as adversidades, sem perder-se da real perspectiva da vida.

O humor envolve sempre uma habilidade e grande sensibilidade no trato da energia, em saber convertê-la de um lado para o outro (criar o inesperado), extrair a energia do "nada", de onde parecia que nada mais pudesse ocorrer. A repetição também é um artifício do qual muitas vezes o humor se utiliza como solo fértil para emergir: uma situação que se repete muitas vezes é engraçada. Isso é muito utilizado no teatro e pelos humoristas.

Com base no humor também encontramos os recursos da gaiatice, do absurdo e do patético, bastante usados no teatro do absurdo do mestre francês o Eugène Ionesco. Segundo ele, a vida é tão absurda que o melhor a fazer é rir de nós mesmos e dela.

Desfecho

Precisamos expandir nossa consciência, criarmos espaços e participarmos das brincadeiras das nossas crianças, permitirmos que nossas crianças brinquem e que o lúdico faça parte do nosso cotidiano - juntos & separados dos nossos filhos, sobrinhos, netos, alunos, pacientes... - para dissolver nossa infantilidade, que nos limita e; nos mantém empacados em padrões e limitações de sempre: medo de brincar, medo de experimentar, medo de se transformar e crescer.

A criança brinca para poder se desenvolver, amadurecer, crescer. Esta é uma necessidade humana, sempre!!!

A bênção e significância da vida estão em Sermos as crianças espirituais que realmente somos, que ama, perdoa, doa, serve, soma e liberta-se. Não existimos para sermos destrutivos, separados, paralisados pelo medo de amar e experimentar: brincar!

Dissolvendo essa infantilidade prejudicial – “para ser amado e respeitado preciso ser o tempo todo responsável e sério” -, podemos permitir que nossas crianças brinquem, experimentem, amem, perdoem, sirvam e somem.

Dissolvendo nossa imaturidade, poderemos distinguir entre o humor não benéfico (humor negro e preconceituoso) do humor necessário para tornar a vida cheia de graça. Podemos distinguir entre o grau de seriedade desmedido das coisas, característica muito comum da “racionalidade”, e a necessidade equilibrada – amável - de não levarmos a vida e seus cenários tão a sério.

Só sendo realmente maduros, poderemos brincar, nos entregar às brincadeiras para gente grande, espalhar a cura, a graça e o amor como crianças que espalham tinta em uma tela colorida.

Vamos brincar de cura e responder porque não brincamos mais, porque ficamos tão sisudos e o mundo tão cinza.

Viva o riso inocente, a vida suave, a criança eterna dentro de cada um de nós.

O amor é a única coisa que existe.

Texto adaptado para a Revista Especial Kids por Conceição Trucom.

Fonte: Luiz Antonio Berto, que desenvolve estudos e práticas sobre o conceito de Terapia Energética (a), tendo formação em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda - e cursos técnicos de quiropraxia, bioenergética emocional e massagem terapêutica, atuando profissionalmente nesta área desde 2001.

(a) Atividade ligada a autoconhecimento, busca pessoal e expansão de consciência.

Reprodução permitida desde que mantida a integridade das informações, citada a autoria e a fonte www.docelimao.com.br 


 

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