Linhaça e Prevenção de Doenças Cardiovasculares

Linhaça e Prevenção de Doenças Cardiovasculares

A doença cardiovascular (DCV) inclui todas as doenças do coração e dos vasos sanguíneos como a doença arterial coronariana (DAC) e o acidente vascular cerebral (AVC).

DCVs e arteriosclerose

A DCV, como resultado da aterosclerose, é uma doença inflamatória que pode começar na infância. Na medida em que se desenvolve a aterosclerose o colesterol e outros lipídeos do sangue se acumulam nas paredes dos vasos sanguíneos. Este processo é regulado por lipoproteínas de baixa densidade ou LDL, eicosanóides, citocinas e outros componentes do sangue.

Eventualmente formam-se placas que endurecem as paredes dos vasos sanguíneos. As placas podem crescer tanto que conseguem restringir o fluxo do sangue para o coração e para o cérebro. O fluxo do sangue também pode ficar impedido pelos coágulos. A trombose é a formação repentina de um coágulo iniciada pela coagulação (agregação) de plaquetas no sangue. Quando um coágulo obstrui o fluxo do sangue no coração provoca-se um enfarte do miocárdio ou ataque cardíaco. Por outro lado, quando um coágulo obstrui o fluxo do sangue para o cérebro, ocorre um acidente vascular cerebral (AVC). Os ácidos graxos provenientes de alimentos ricos em “gorduras nutricionais” parecem estar envolvidos nos processos da medicina preventiva.

Arritmia

A formação de coágulos no coração provoca a isquemia, o que significa bloqueio do fluxo do sangue através do músculo cardíaco. A isquemia é o gatilho mais comum das arritmias. 

A infusão intravenosa de AAL realizada em cães mostrou-se tão eficaz quanto o ácido eicosapentaenóico (EPA) e docosahexaenóico (DHA) na prevenção de arritmias. 

Em estudos de laboratório de células cardíacas retiradas de ratos, foi descoberto que os ácidos graxos poliinsaturados ALA, EPA e DHA têm efeitos benéficos semelhantes na prevenção de arritmias. Acredita-se que esses ácidos graxos da família ômega-3 protegem contra arritmias, primeiro por serem liberados dos fosfolipídios das membranas e, em seguida, pela alteração do estado físico das membranas de modo que elas se tornam menos excitáveis. No entanto, ainda não está claro se este efeito também ocorre em seres humanos.

Um estudo realizado nesta área não encontrou nenhum efeito dos ácidos EPA e DHA do óleo de peixe na eletro-fisiologia do coração de homens e mulheres saudáveis. No entanto, existem evidências de estudos clínicos, preventivos e epidemiológicos, que indicam que a morte súbita cardíaca (geralmente o resultado da arritmia induzida pela isquemia) é menor em pessoas com alimentação rica em ALA (encontrado em abundância na semente de linhaça), por reduzir o colesterol no sangue e prevenir a morte cardíaca súbita e o derrame.

O óleo de linhaça (prensado a frio e à vácuo) é rico em ALA, porém pelo fato de não conter fibra pode ter menos efeito sobre a redução do colesterol no sangue e ter uma maior participação em outros efeitos importantes como a redução do risco de DCVs. O ALA, por exemplo, contribui para limitar as reações inflamatórias que por sua vez provocam a aterosclerose.

Considerando todo o exposto, a maioria dos estudos realizados mostra que pessoas que têm uma dieta rica em ALA têm um menor risco de desenvolver DCVs (ver Tabela 11). Nestes estudos, foi observado um efeito cardioprotetor do ALA, apesar de que os estudos tinham diferenças nas populações estudadas, na duração e acompanhamento dos casos bem como nos resultados e métodos de cálculo da informação estatística. Na atualidade tem surgido o consenso de que o ALA tem efeitos benéficos na prevenção DCVs.

Efeitos cardioprotetores da semente da linhaça

Dois componentes da semente de linhaça (o ALA e as lignanas) podem prevenir as DCVs através de suas propriedades antiinflamatórias e seus efeitos sobre lipoproteínas e vasos sanguíneos. Alguns dos mecanismos prováveis são:

1.     O ALA bloqueia a produção de eicosanóides pró-inflamatórios (veja o Capítulo 2 para obter mais informações sobre eicosanóides). Por exemplo, a concentração de tromboxano B2 foi diminuída em 30% em células do sistema imunológico de 28 homens saudáveis que consumiram 1 3/4 colher de sopa de óleo de linhaça por dia durante 4 semanas. O tromboxano B2 é um metabólito do tromboxano A2, que é um dos eicosanóides derivados do ácido araquidônico. O tromboxano A2 é um dos mais potentes constritores dos vasos sanguíneos e os promotores da agregação plaquetária. Uma redução de 30% na concentração de tromboxano B2 é um importante achado clínico.

2. O ALA bloqueia a liberação de diversas citocinas inflamatórias. A concentração do fator de necrose tumoral alfa (TNF-?) e da interleucina-1? (IL-1?) em células do sistema imunológico foi reduzida 26% e 28% respectivamente, em um estudo realizado com 28 homens saudáveis que consumiram óleo de linhaça durante quatro semanas, conforme foi descrito anteriormente. Tanto o fator de necrose tumoral alfa (TNF-a) como a interleucina-1b (IL-1b) são a resposta básicas do organismo para os efeitos inflamatórios.

3. A apolipoproteína B (apo B) diminuiu 6% em um estudo realizado com 29 mulheres e homens hiperlipidêmicos que introduziram linhaça parcialmente desengordurada em suas dietas. Obteve-se também uma redução de 19% em um estudo realizado com 8 homens com níveis normais de lipídios no sangue e que consumiram uma mistura de óleos vegetais, incluindo óleo de linhaça. 

A concentração sérica de apo B diminuiu em 7,5% em um estudo realizado com 25 mulheres na pós-menopausa que consumiram 40 g de semente de linhaça moída por dia, durante três meses. A apo B é a principal proteína da LBD e da lipoproteína HLDL.

As lipoproteínas que contêm apo B aumentam o risco de produzir aterosclerose.

4. O funcionamento arterial sistêmico melhorou em um estudo onde participaram 15 voluntários obesos de ambos os sexos que consumiram sistematicamente óleo de linhaça durante 4 semanas. O funcionamento arterial sistêmico é uma forma de medir a flexibilidade dos vasos sanguíneos. Este método, não invasivo, fornece informações sobre a saúde do sistema circulatório. Embora a dose média de ALA fornecida não tenha sido realista (20 g ALA/dia equivalente a 2,5  colheres de sopa de óleo de linhaça). A principal conclusão do estudo foi impressionante: a melhoria do funcionamento arterial sistêmico pelo consumo do óleo de linhaça foi semelhante ao que se obtém através do exercício.

5. A Linhaça bloqueia o fator ativador das plaquetas (FAP). O FAP participa significativamente nas reações inflamatórias e também contribui para danificar o tecido. Tem sido detectado que os níveis de FAP aumentam durante a nefrite por lúpus e inflamação dos rins. A agregação de plaquetas, em resposta ao FAP foi bloqueada de forma significativa em 9 pacientes que foram diagnosticados com lúpus eritematoso sistêmico e que receberam 15 g, 30 g ou 45 g de semente de linhaça moída/dia durante quatro semanas.

A seguir um resumo dos estudos epidemiológicos sobre a prevenção de doenças cardíacas com o consumo da linhaça e derivados.

 

Estudos epidemiológicos do consumo de ALA e o risco de Doenças cardiovasculares (DCVs)
Estudos que mostram benefícios consumo ALA
Número de participantes
Consumo médio
ALA g/dia
 
 
Principais resultados
Estudos de controle de casos únicos e múltiplos
Estudos da saúde cardiovascular (265)
179 casos
54 controles
ND
A maior ingestão de ALA foi associada com um risco menor de doenças cardíacas isquêmicas fatais.
Estudo da Costa Rica
(266, 267)
482 casos
482 controles
ND
A concentração maior de ALA no tecido adiposo foi associada com uma diminuição do risco de infarto do miocárdio (IM) não-fatal agudo. A melhor proteção contra IM foi observada naquelas pessoas com altos níveis de ALA e baixos níveis de ácidos graxos trans no tecido adiposo.
Estudo EURAMIC (268)
639 casos
700 controles em 8 países europeus e Israel
ND
A maior concentração de ALA no tecido adiposo foi associada com uma redução do risco de infarto do miocárdio (IM).
Estudo na Índia (269)
340 casos
700 controles
ND
O consumo de óleo de mostarda, rico em ALA foi associado com um menor risco de doença isquêmica do coração (DIC).
Estudo da Universidade Nacional de Singapura sobre o coração (270)
145 homens asiáticos e indianos e
147 homens chineses
ND
Neste estudo os homens indianos apresentaram concentrações plasmáticas significativamente mais baixas de ALA, DHA e de ácidos graxos totais ômega-3, em comparação com os chineses.
Exames preventivos
 
Estudo da prevenção do câncer: Alfa Tocoferol e o Beta Caroteno (271)
21.930 homens fumantes
0,9-2,5
média = 1,5
A maior ingestão de ALA foi associada com um risco relativamente menor de morte coronariana.
Estudo sobre o coração e a dieta Lyon (272,273)
605 homens e mulheres que sobreviveram ao ataque cardíaco
1,74-1,8
A dieta rica em ALA foi associada com uma redução de 70% em ataques cardíacos e mortes por problemas cardíacos.
Estudo consumo Margarina
= gordura trans (283, 284)
282 homens e mulheres
6,3
Embora uma dieta rica em ALA não reduz o risco estimado de 10 anos de doenças isquêmicas do coração (DIC), a dieta diminuiu dois fatores associados com o incremento do risco: Níveis de fibrinogênios (263) e de Proteína C-reativa (284).
Teste de Intervenção do Fator de Risco Múltiplo (MRFIT) (274)
6.250 homens
6,250 no grupo de cuidados habitual
1,69
A maior ingestão de ALA foi associada com um menor risco de doença arterial coronariana (DAC) e qualquer outra causa de morte.
 
Estudos baseados em populações
 
Estudo familiar do coração (275, 278)
1.575 a 4.584 Homens e
mulheres
Homens = 0,81 Mulheres = 0,68
Tanto em homens como em mulheres o maior consumo de ALA foi associado com: Menor risco de doença coronária (275). Menores níveis de triglicérides no sangue (276). Menor prevalência de plaquetas da artéria carótida Ia (277). Prevalência inferior da placa aterosclerótica calcificada (278) (b). A redução no risco de doença coronária pareceu ser independente do consumo de peixes (275).
 
Estudo de acompanha-mento de profissionais da saúde (279, 280)
43.757 homens (279)
45.722 homens (280)
0.8-1.5
A maior ingestão de ALA foi associada com menor risco de ataque cardíaco não fatal e doença coronariana total.
 
Estudo das enfermeiras sobre a saúde (281, 282)
76.283 mulheres
1,1 g (e)
faixa da média
= 0,66 a 1,39 g
A maior ingestão de ALA foi associada com menor risco de doença isquêmica do coração (DIC) e morte súbita cardíaca fatal (282).
 
Estudos que não mostram os benefícios do AAL no risco de DCVs
 
Estudo Zutphen de adultos maiores (285)
667 homens
1,32 (d)
O consumo de AAL mostra uma modesta relação com o risco de DCVs, principalmente porque este ácido pode ser encontrado em alimentos que contêm ácidos graxos trans. O consumo de alimentos que não contêm ácidos graxos transnão foi relacionado com o risco de DCVs (e).
 
(a) Abreviaturas: ALA = ácido alfa-linolênico, DC = doença cardíaca coronária, DCV = Doença cardiovascular, DIC = doença isquêmica do coração, IAM = infarto do miocárdio (ataque cardíaco); ND = não disponível.
(b) As placas calcificadas ocorrem quando o cálcio se deposita nas paredes das artérias formando uma lesão; a presença de placas calcificadas pode ser usada para prever ataques cardíacos e morte coronariana.
(c) Consumo médio de ALA em 1984. Questionário dietético com 116 perguntas realizadas a mulheres avaliadas em relação ao risco de DIC.              
(d) Consumo médio.
(e) A associação entre o consumo de ALA e o risco de DCVs neste estudo não foi estatisticamente significativa (p = .17) após feitas as correções por idade, índice de massa corporal, tabaquismo, consumo de fibra, ácidos graxos trans e outros fatores.
 
Texto extraído e adaptado por Conceição Trucom do site www.flaxcouncil.ca
 
Traduzido por Fernando Trucco - O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Ver referências aqui

 

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