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Por Julianne Silveira
Folha de São Paulo - 30/04/2009
Há seis meses, a administradora Karina Lacerda, 28, excluiu leite e seus derivados da dieta. Com isso, ficou livre de crises de enxaqueca, dores de estômago, inchaço e indisposição. "Passei muito mal no ano passado e fui a cardiologista, neurologista, ninguém resolvia. Até que uma amiga me indicou uma nutricionista funcional, que me pediu que parasse de tomar leite por um mês."
O jejum de laticínios, que também a fez perder peso, tornou-se permanente.
Não come mais pizza nem consome leite ou derivados. "Só um "risotinho" na casa de amigos ou um docinho. Sou viciada em sorvete, por exemplo, mas não exagero, porque já sinto inchaço ou dor de cabeça no outro dia."
Karina nunca fez exames para saber se tem intolerância ou alergia ao leite de vaca, mas acredita que o alimento seja responsável pelos sintomas.
Questionada sobre a possível deficiência de cálcio que teria com a nova dieta, ela respondeu tranquilamente: "Há outras fontes. Alimentos como feijão, beterraba e vegetais verde-escuros também contêm cálcio. Fiz um exame e meus níveis continuam altos mesmo sem o leite."
Alguns adoram, outros não podem nem sentir o cheiro. Há quem prefira a versão desnatada e quem não abra mão de suas gorduras, sob alegação de que o sabor é inigualável.
O fato é que o leite de vaca, um dos alimentos mais consumidos no Ocidente, sempre causou polêmicas entre os leigos. E, recentemente, tem alimentado discussões também entre os especialistas.
Para alguns, o leite é responsável por inchaços abdominais, diarreia, constipação intestinal e problemas respiratórios e, por isso, deveria ser excluído da dieta dos adultos. Para reforçar a tese, existe a ideia de que nenhum outro mamífero consome leite na fase adulta.
"No Ocidente, conseguimos industrializar o leite e o consumimos até o fim da vida. Mas muitas pessoas não relacionam reações do corpo, como uma constipação, a uma intolerância leve ao alimento. O princípio da medicina chinesa, por exemplo, é observar o equilíbrio do paciente. Se há algum desequilíbrio na parte respiratória ou gastrointestinal, a suspeita recai sobre o leite", diz a nutricionista Kátia Camargo, que pesquisa Medicina Tradicional Chinesa.
Segundo ela, os orientais deixam de consumir o alimento quando crescem porque acreditam que não precisam dele na fase adulta. "A alimentação deles supre a necessidade de cálcio porque é rica em vegetais, soja fermentada e tofu, alimentos que contêm boas quantidades desse mineral."
A nutróloga Mariela Silveira, membro do Comitê Diretivo do Kurotel Centro de Longevidade e Spa, também acredita que o leite de vaca contribua para desencadear processos inflamatórios em organismos mais sensíveis.
"Um alimento que é bom para um indivíduo não será necessariamente bom para outro. O leite está muito ligado ao sistema imunológico. Pacientes com doenças autoimunes e problemas respiratórios apresentam melhora após deixar de consumi-lo", afirma.
A equipe de médicos e nutricionistas do spa costuma sugerir a hóspedes com distúrbios gastrointestinais que retirem laticínios da dieta. Segundo Silveira, boa parte dos pacientes sente melhora nos sintomas após tomar essa medida.
Para engrossar o coro, uma pesquisa com 98 crianças que sofriam de constipação intestinal mostrou relação entre o distúrbio e a ingestão do alimento. Ao retirar leite e derivados da dieta, 35% melhoraram.
"Quando estudamos um pouco mais sobre a conexão do alimento com o organismo, observamos como é a reação com o paciente. O alimento sozinho é uma coisa e no organismo é outra", afirma Daniela Jobst, membro do Centro Brasileiro de Nutrição Funcional e do Instituto de Medicina Funcional dos Estados Unidos, responsável pelo trabalho, que ainda não foi publicado.
Para ela, apesar de o leite conter altos teores de cálcio, o organismo não absorve boa parte desse nutriente. Jobst e outros especialistas ouvidos pela *Folha* defendem que é possível garantir o aporte diário de cálcio por meio de outros alimentos, como vegetais verde-escuros e castanhas.
"Pessoas hipersensíveis não conseguem aproveitar o cálcio do leite porque as moléculas do mineral não são quebradas corretamente e acabam não sendo absorvidas", diz.
Fonte http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u558455.shtml
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